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Símbolo dos anos 80

Como nasceu "Sweet Dreams (are made of this)", do Eurythmics

Era o início da consolidação internacional de Annie Lennox e Dave Stewart como protagonistas da nova estética eletrônica

DA REDAÇÃO • 12/02/2026 às 9:05

Como nasceu "Sweet Dreams (are made of this)", do Eurythmics
Eurythmics / RCA Records (1983)

Na série Por que os anos 80 não acabaram, já destacamos como a tecnologia foi determinante para impulsionar uma nova geração de artistas que moldou de forma definitiva a sonoridade e a identidade da década.

Não por acaso, poucas canções simbolizam tão bem esse momento de transformação quanto “Sweet Dreams (Are Made Of This)”, lançada em janeiro de 1983 pelo duo britânico Eurythmics. A faixa foi o quarto e último single do segundo álbum da dupla, também intitulado Sweet Dreams (Are Made Of This), lançado pela RCA Records naquele mesmo ano — e acabou se tornando o divisor de águas que levou o grupo ao estrelato mundial.

O single alcançou o segundo lugar nas paradas do Reino Unido em março de 1983 e, seis meses depois, conquistou o primeiro lugar na Billboard Hot 100, nos Estados Unidos. Era o início da consolidação internacional de Annie Lennox e Dave Stewart como protagonistas da nova estética eletrônica da década.

Com sua batida hipnótica, riff pulsante de sintetizador analógico e a interpretação intensa e enigmática de Lennox, a música se consolidou como um dos maiores clássicos da história do pop contemporâneo.

O que muitos não sabem é que esse sucesso nasceu em um estúdio improvisado, com equipamentos limitados e um espírito obstinado de experimentação. Sem os avanços tecnológicos que estavam redefinindo o processo de gravação no início dos anos 80, é possível que “Sweet Dreams” simplesmente nunca tivesse existido — ao menos não da forma como o mundo passou a conhecê-la.

Um estúdio sobre uma loja de molduras

Após o fim da banda The Tourists, Lennox e Stewart decidiram seguir por um caminho mais eletrônico. O novo começo não aconteceu em um grande estúdio londrino, mas sim acima de uma loja de molduras em Chalk Farm, no norte de Londres — um espaço improvisado que se tornaria o berço de uma revolução sonora.

O orçamento era mínimo. O equipamento, essencial: um TEAC 144 Portastudio, um gravador Tascam de oito canais, a drum machine Roland TR-606 Drumatix, o sintetizador EDP Wasp com seu sequenciador Spider, além do Roland SH-101 e do Oberheim OB-X. Hoje, parecem relíquias da era analógica. Naquele momento, eram ferramentas de vanguarda acessíveis.

Foi nesse ambiente restrito que Stewart dominou a manipulação de sequências, o uso criativo de bounce entre canais e a construção de camadas sonoras dentro do limite rígido de oito pistas. Cada decisão era definitiva. Não havia atalhos digitais, nem botão de “desfazer”. A limitação técnica acabou estimulando uma inventividade que moldaria a identidade da canção.

O erro que virou assinatura

A batida característica da música nasceu de um erro no computador de percussão MCS (Movement Systems). Ao tentar programar o ritmo, Stewart criou acidentalmente aquele “doom” grave e seco que abre a faixa. Em vez de corrigir, decidiu manter.

O resultado foi um pulso minimalista, quase industrial, que combinado ao four on the floor criou uma base irresistível — ainda hoje eficaz nas pistas de dança.

Nos anos 80, essa estética eletrônica ainda era território experimental. “Sweet Dreams” não soava como o synth-pop dominante da época. Era mais crua, mais mecânica, mais ousada.

Dois teclados, um enigma sonoro

O riff que tornou a música imediatamente reconhecível não é uma única linha de sintetizador. Ele nasce da interação entre dois instrumentos tocando partes distintas. O Roland SH-101 executava a sequência principal, enquanto o Oberheim OB-X adicionava uma textura de cordas com ataque mais incisivo.

A sobreposição dessas camadas criou a atmosfera hipnótica que ainda hoje desafia músicos que tentam reproduzi-la fielmente. O que parece simples ao ouvido é, na prática, um encaixe sofisticado de estruturas sonoras.

No plano emocional, o momento da composição também refletia contrastes. Stewart vivia uma fase de energia criativa intensa após se recuperar de uma cirurgia pulmonar. Já Lennox atravessava um período de fragilidade e introspecção.

A letra surgiu rapidamente, em cerca de meia hora. “Some of them want to use you…”. O tom quase infantil, mas carregado de ambiguidade e sombra, acrescentou à faixa uma dimensão psicológica que a transformou em algo muito além de um simples hit eletrônico.

Quando a escassez vira linguagem

A geração que começou a compor em porões e quartos improvisados transformou a falta de recursos em ponto de partida criativo. Com Lennox e Stewart não foi diferente.

Garrafas de leite foram afinadas com água e usadas como instrumentos. Palmas passaram por pedais de fuzz para ganhar textura. Unidades de reverberação foram desmontadas e adaptadas. Tudo era tentativa e erro. Tudo era artesanal.

Paradoxalmente, foi essa escassez que ajudou a moldar a identidade do disco. O som peculiar de “Sweet Dreams (Are Made Of This)” não nasceu da abundância, mas da limitação — e talvez por isso soe tão singular até hoje.

A mudança para a igreja

Quando perderam o primeiro espaço, o duo se mudou para um prédio em Crouch End que mais tarde ficaria conhecido como The Church Studios. Naquele momento, era apenas uma antiga igreja adaptada.

Ali finalizaram a produção da faixa, ainda com recursos limitados e decisões tomadas no limite técnico. O sucesso internacional transformaria aquele endereço em um polo criativo importante do pop britânico. O que começou como solução provisória tornou-se parte essencial da trajetória do duo — e da própria história da década.

O legado musical e tecnológico

“Sweet Dreams (Are Made Of This)” não foi criada como um projeto calculado para dominar as paradas. Foi resultado de curiosidade, limitação técnica e ousadia estética.

Ela representa um momento decisivo da música pop: quando sequenciadores começaram a redefinir a composição, drum machines ganharam protagonismo e estúdios de oito canais eram capazes de produzir um som global.

Décadas depois, a faixa ainda soa atual porque carrega essa ruptura em seu DNA. Não foi apenas um sucesso comercial. Foi a demonstração de que a tecnologia, nas mãos certas, pode transformar restrições em identidade artística e reinventar o pop.

Talvez seja por isso que, como costuma dizer Dave Stewart, “Sweet Dreams” se tornou algo próximo de um “Happy Birthday eletrônico” — uma presença constante que atravessa gerações.

Toda vez que esse clássico tocar na programação da Rádio Antena 1, não será apenas mais um hit dos anos 80. Será o eco de um momento em que experimentação, tecnologia e visão artística se encontraram para redefinir os rumos da música pop mundial.

Entre desejo, poder e identidade: o significado por trás da letra e das imagens

A letra de “Sweet Dreams (Are Made Of This)” é construída sobre uma ambiguidade que atravessa toda a canção. “Some of them want to use you / Some of them want to be used by you” (“Alguns deles querem te usar / Alguns deles querem ser usados ​​por você”) não fala apenas de relacionamentos amorosos, mas de poder, manipulação, ambição e sobrevivência em um mundo competitivo.

Não há julgamento moral explícito. A música observa. Quase descreve um jogo humano inevitável. A repetição hipnótica da frase central reforça essa ideia de ciclo: desejos que se repetem, relações que se invertem, posições que alternam dominador e dominado. A ausência de um refrão tradicional também contribui para essa sensação de continuidade — como se não houvesse resolução, apenas movimento constante.

O videoclipe ampliou esse discurso de maneira visualmente provocadora. Annie Lennox, com cabelos curtos alaranjados e vestindo terno masculino, subverteu códigos de gênero na televisão dos anos 80. A imagem era fria, minimalista, quase industrial — em sintonia com a estética eletrônica da faixa.

A presença da vaca na sala de reuniões, um dos elementos mais comentados do clipe, simboliza o contraste entre natureza e artificialidade, entre instinto e racionalidade corporativa. Já os enquadramentos estáticos e o olhar direto de Lennox para a câmera criam uma sensação de confronto silencioso com o espectador.

Não era apenas um vídeo musical. Era uma declaração estética.

Se a tecnologia ajudou a moldar o som de “Sweet Dreams”, o videoclipe consolidou sua identidade cultural. A canção falava sobre desejo e poder; a imagem mostrava controle e ruptura de padrões.

E talvez seja exatamente essa combinação — som minimalista, letra ambígua e estética visual ousada — que tenha transformado o que começou como um experimento em um dos manifestos mais duradouros da cultura pop dos anos 80.

Informações: Antena 1

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