
No mesmo dia em que o governador do estado do Tennessee, o republicano Bill Lee, proclamou o 19 de janeiro como o Dolly Parton Day, em homenagem oficial à cantora que completou 80 na data, os Estados Unidos também reverenciaram uma das datas mais importantes do calendário nacional: o Martin Luther King Jr. Day.
A coincidência não é apenas simbólica. Ela expõe como a música, em diferentes gerações e estilos, ajudou a moldar debates sociais, identidades regionais e decisões políticas que ultrapassaram o universo artístico.
Um feriado que nasceu da música e da mobilização
O Dia de Martin Luther King Jr. não foi instituído de forma imediata após o assassinato do líder dos direitos civis, em 1968. Durante mais de uma década, a proposta enfrentou resistência política no Congresso dos Estados Unidos, refletindo divisões profundas sobre o reconhecimento institucional de seu legado. Foi nesse cenário que Stevie Wonder passou a atuar de maneira decisiva para transformar a homenagem simbólica em política pública.
No início dos anos 1980, Stevie Wonder lançou a canção Happy Birthday como parte de uma mobilização nacional em defesa da criação do feriado. A música integra o álbum Hotter Than July e foi concebida explicitamente como um chamado público em homenagem a Martin Luther King Jr.
Rapidamente, a canção extrapolou o campo artístico e passou a ser incorporada a atos públicos, marchas e campanhas civis em todo o país, funcionando como instrumento de pressão popular e de visibilidade política para a causa.
Em 15 de janeiro de 1981, Stevie Wonder liderou um grande ato no National Mall, em Washington, reunindo cerca de 50 mil pessoas. O evento contou com a participação de artistas de diferentes gerações e gêneros, como Diana Ross, Gladys Knight e Gil Scott-Heron, reforçando o caráter coletivo e cultural da mobilização em torno do legado de Martin Luther King Jr..
A partir desse momento, Wonder intensificou sua atuação, dedicando turnês, discursos públicos e manifestações ao avanço da proposta. O engajamento ajudou a manter o tema no centro do debate nacional por três anos consecutivos, ampliando o apoio popular e político.
O movimento culminou em 1983, quando o Congresso aprovou a criação do feriado. A lei foi sancionada pelo então presidente Ronald Reagan, e o Dia de Martin Luther King Jr. passou a ser celebrado oficialmente em todo o país a partir de 1986, tornando-se o primeiro feriado federal norte-americano dedicado a um afro-americano.
Cultura como força de transformação
A homenagem a Dolly Parton no Tennessee e a lembrança de Martin Luther King no mesmo dia reforçam uma ideia central da história americana: a cultura popular sempre teve papel ativo nas grandes transformações sociais do país.
Enquanto Dolly Parton encarna uma identidade regional que atravessa gerações e dialoga com públicos diversos, Stevie Wonder representa o artista que extrapolou o espaço do palco para atuar diretamente na consolidação de um marco civil. Em comum, ambos evidenciam como a música, quando alinhada ao seu contexto histórico, assume um papel que vai além do entretenimento e passa a influenciar o debate público.
Na cultura americana, arte e engajamento social sempre caminharam lado a lado. Muito antes da campanha pelo Dia de Martin Luther King, artistas já utilizavam sua visibilidade para provocar reflexões sobre desigualdade, direitos civis e o rumo político do país. Esse padrão se mantém vivo em diferentes momentos da história, inclusive no cenário atual, marcado por tensões e polarizações durante a gestão do presidente Donald Trump.
Um dos exemplos mais recentes veio de Bruce Springsteen, que voltou a usar o palco como espaço de posicionamento político. Durante uma apresentação no estado de New Jersey, o artista criticou publicamente as ações do ICE, a agência de imigração dos Estados Unidos, em um discurso que repercutiu amplamente.
Springsteen, crítico recorrente de Trump e de sua administração, participou do Light of Day Winter Festival, realizado em 17 de janeiro, evento beneficente dedicado à arrecadação de recursos para pesquisas sobre Parkinson e outras doenças neurodegenerativas. No palco, expressou preocupação com os rumos do país e reforçou a tradição de artistas que utilizam sua voz não apenas para cantar, mas para comentar o tempo em que vivem.
Informações: Antena 1


